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Ensinamento

O que o Karate-Do me ensinou e que me faz um profissional melhor

16/11/2016 às 08h23 - Atualizado em 16/11/2016 às 08h28

O Karate-Do ou em português “Caminho das mãos vazias” é uma arte marcial milenar que surgiu em Okinawa, um conjunto de ilhas que fica no Japão. Surgiu a partir da necessidade de defesa pois os moradores se tornaram reféns de ataques piratas em uma época em que era proibido o uso de armas letais. Sempre foi um instrumento de defesa, nunca de ataque.

Pratiquei o “caminho das mãos vazias” por mais de 7 anos ininterruptos alcançando a faixa marrom. Hoje, devido o trabalho não o faço com a frequência que eu gostaria, infelizmente. Comecei meus treinamentos com meu querido Mestre Rogério Wong, faixa preta 8º Dan. Significa que ele é oito vezes faixa preta: um nível alcançado por poucos e além disso, é uma referência no assunto e muito respeitado com mais de 40 anos como praticante e 30 como professor.

Quando criança eu sempre me senti inseguro em relação a vários aspectos e, quando vesti meu uniforme pela primeira vez, o karate-gi ou kimono como é popularmente conhecido, senti confiança em mim mesmo. Esse foi o primeiro resultado positivo que o karate me deu provavelmente por que passei a imaginar que eu era forte e imbatível assim como os personagens interpretados por Jean Claude Van Damme, que eu cansei de assistir. Mas não foi só confiança que o Karate me deu.

Aula após aula aprendi a filosofia dessa arte. Ouvi do meu mestre frases sucintas mas com enorme significado como:

“Treinamos para sermos campeões da vida”;
“Ichi Go, Ichi E” (“Trate bem todas as pessoas que conhecer na sua vida")
“Karate ni sente Nashi” (“no Karate não existe ataque”)

Também não posso esquecer do primeiro ensinamento: “O Karate começa e termina com respeito”. Antes de iniciar ou finalizar a aula agradecemos, de joelhos, o nosso mestre e amigos pelo compartilhamento de conhecimento.

Toda essa filosofia pode ser resumida pelo nosso dojo kun, um conjunto de comportamentos e regras que regem as ações de um praticante de karate: “Respeito, Responsabilidade, Sociabilidade, Paciência, Justiça, Humildade, Conter espírito de agressão e amor no coração”. Repeti essas palavras ao final de toda aula, sem exceção e garanto, que elas passam a fazer parte de quem as pronuncia e influenciam sim suas ações.

Jovem, as competições fizeram parte do meu dia-a-dia. Um lugar no pódio é o objetivo de qualquer pessoa que se dedica e se propõe a participar de uma competição mas só quem o faz sabe como é o caminho para se chegar lá. Lembro como se fosse ontem, quão cansado eu ficava depois de um treino para competição; lembro também da sensação indescritível de satisfação de treinar toda uma tarde e ter uma medalha no peito como resultado. No entanto, até que este resultado tão esperado chegue, é preciso muita dedicação, disciplina e, principalmente, muito controle emocional. Quando se olha o adversário do outro lado do tatame, disposto a ganhar de você, às vezes maior, mais forte, mais ágil ou mais graduado, as pernas ficam trêmulas, o coração acelera, a boca fica seca e você começa a duvidar da própria capacidade. Somos o nosso primeiro adversário.

Aprender a lidar com estes sentimentos é algo que muitas pessoas tem dificuldade e nós, praticantes de karate, somos colocados à prova já nas primeiras competições ou exames de faixa, às vezes até com apenas 7 ou 8 anos de idade. Este controle emocional é essencial para a vida pessoal e profissional.

Costumo dizer que a prática do Karate me tornou um profissional melhor. Toda essa vivência marcial facilitou que eu encarasse o mercado de trabalho com uma perspectiva totalmente diferente. Quando estou diante de um problema grande, a pressão, a adrenalina é muito parecida com a situação de encarar um adversário maior que eu. Ou quando estou no escritório, trabalhando em equipe, coloco em prática tudo o que aprendi sobre respeito, responsabilidade, etc, fazendo com que eu seja uma pessoa mais confiável para meus colegas. Por mais que algumas pessoas vejam artes marciais como uma besteira, eu acredito, firmemente, que se praticada com seriedade teremos pessoas melhores, profissionais melhores e, consequentemente uma sociedade melhor.

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